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o todo da parte

Ensimesmada

Às vezes me sinto meio Ed Kennedy

“Antes de começar a entrar em detalhes sobre mim, acho melhor ir contando alguns outros fatos:
1. Quando tinha 19 anos, Bob Dylan já era veterano da noite do Greenwich Village, em Nova York;
2. Salvador Dalí já tinha pintado uma porrada de quadros sensacionais e se rebelado quando fez 19 anos;
3. Joana D’Arc era a mulher mais procurada e caçada no mundo quando tinha 19 anos, tendo criado uma revolução;

Daí vem Ed Kennedy, também com 19 anos de idade… Um pouco antes do assalto lá no banco, eu já estava fazendo um balanço geral da minha vida.
Taxista – pra conseguir este emprego, tive que mentir na idade. (É preciso ter no mínimo 20 anos.)
Não segue carreira nenhuma.
Não tem o menor respeito na comunidade.
Porra nenhuma.” – Eu sou o mensageiro, Markus Zusak

Eu tenho 21 anos. Vocês podem dizer que ainda tenho a vida inteira pela frente, mas ó, tem dias que me sinto exatamente assim. Quando tinha cerca de 20 anos (não lembro agora se ele tinha 20, 21 ou qualquer coisa do tipo), Leonardo Sakamoto estava no Timor Leste, cobrindo o conflito armado contra a invasão indonésia. Virou seu trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. Com 20 anos, Gabriela já tinha saído da casa dos pais e morava sozinha. Ela já era a minha mãe, estava terminando a faculdade e trabalhava desde os 14 anos. E esses são apenas dois exemplos, que de certa forma fazem parte da minha realidade. Se fosse para citar gente famosa, ficaria nisso para sempre.

Às vezes me sinto realmente deprimida com a minha vida. Como se tudo isso fosse sem propósito, como se não fizesse diferença nenhuma. E aí fico pensando em como o Ed mudou a vida de tanta gente (nem que fosse algo momentâneo). Tá bom que é uma obra de ficção e ninguém recebe cartas de baralho pelo correio, ainda mais para jantar com velhinhas simpáticas, levar surra de irmãos, tomar sorvete com uma jovem mãe ou colocar luzinhas de Natal na casa dos outros.

Na vida real, não tem essa de chamado da aventura, não tem jornada do herói. Tem o cotidiano. Pode até ser pontuado por acontecimentos incríveis, significativos ou simplesmente legais, mas ainda é o nosso feijão com arroz de todo dia. Como fazer com que isso tudo valha a pena?  Fico sempre com aquela sensação incômoda de que a gente tem que ir atrás, porque a vida é agora. Porque a vida está passando.

No livro, o Ed percebe que ele era a maior mensagem de todas e que se tornou uma pessoa melhor (desculpa se soou como spoiler, mas o título do livro já diz isso. Minha consciência não pesa). Mas e do lado de cá? Como saber se estamos fazendo a coisa certa ou não? Eu não sei. Você não sabe. Sinceramente, ninguém nunca vai responder essa pergunta. A única coisa que sei é para começar, tenho que parar de abraçar sentimentos ruins e de remoer tudo aqui dentro. As coisas podem mudar quando eu sair da inércia. Mas vou parar minhas divagações por aqui, antes que isso se pareça (ainda mais) com um texto de autoajuda.

PS. Este post originalmente era sobre a aula magna que o Sakamoto fez na minha faculdade há mais de um mês, mas bem, deixa pra lá.