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O que não cabia

Pokémon Go e um questionamento sobre ‘imaturidade’

Esses dias estávamos Rodrigo e eu discutindo sobre Pokémon Go, nova febre mundial que vem batendo uns recordes absurdos, como ser mais buscado na internet do que pornografia (vocês tem noção do que isso significa?).com2Fwp-content2Fuploads2F20162F032Fnexus2cee_PokemonGO2-728x573

Na verdade, o Rodrigo não consegue ver muita graça no aplicativo. Logo ele, que foi treinador em todas versões do falecido GameBoy e do Nintendo Ds, que gastou mais dinheiro do que seria prudente admitir com cartas de Pokémon TCG (Trading Card Game: sim, é aquele jogo de cartas, como Magic ou Yu-Gi-Oh!) e até já ganhou campeonato com as mesmas.

Já eu, que só podia jogar Pokémon nos recreios da escola com GameBoy emprestado dos amigos e fui me tornar uma treinadora pela primeira vez apenas em 2012 (quando tinha um salário para comprar meus próprios jogos), fico aqui passando vontade. Meu celular é um Zenfone com processador Intel, e os desenvolvedores do aplicativo não estão nem aí pra mim.

giphy (1)O apelo da nostalgia não funciona muito bem com ele, que consome a franquia regularmente ainda hoje. Pelo contrário: por ter tantas e tantas experiências com Pokémon, acha sem graça andar por aí só jogando pokébolas. Ele quer batalhas, quer algo mais desafiador. Pra completar, o Rodrigo não é nem de longe um millenial (apesar de ter nascido na mesma época que eu) e não vê graça em redes sociais, não anda na rua com olho grudado na tela do celular, nem nada do tipo.

Aí que, de repente, a conversa tomou outro rumo. A gente já não estava mais falando sobre Pokémon Go, realidade aumentada ou aplicativos. O foco era “por que ainda existe essa categorização ridícula de coisas de criança?”. As pessoas deveriam ser livres pra gostar do que quisessem sem que isso fosse considerado infantil. A gente começou a concordar.

A base da Nintendo é o apelo no coraçãozinho dos jogadores, por exemplo. Ou vocês realmente acham que o Nintendo 3Ds XL só existe para ter uma tela maior? Não, amigos. É para um adulto conseguir segurar o portátil de forma adequada. E tá tudo bem com isso. Não tem problema gostar de Mario, Pokémon ou Kirby, mesmo que você não tenha mais 10 anos.

Eu e o Rodrigo também temos essa mania de conversar sobre palavras e o que elas significam. Conversa vai, conversa vem, uma coisa leva a outra e a gente se viu falando sobre o que significa, na verdade, imaturidade. A conclusão, pra gente, é que não faz sentido algum.

Antes de mais nada, a definição uma pessoa imatura é aquela no meio do caminho, que não atingiu o pleno desenvolvimento. Bem, se for isso mesmo, acho que todo mundo é imaturo. Todo mundo está sempre encontrando coisas para melhorar/crescer/mudar. Viver é uma constante transformação – tem coisas que ficam, claro, na mesma proporção que coisas vão e sempre vai ter algo novo para desenvolver.

Segundo que é um bocado prepotente da parte de alguém chamar o outro de imaturo. Vamos combinar, é bem pequeno se basear apenas na sua própria visão de mundo e sair por aí julgando o que é válido ou não. O que pode ser uma atitude imatura para você – os meus muitos vestidos com estampa de bichinho, por exemplo – é, no fim das contas, só uma faceta de personalidade de cada um.

Sem contar que a gente sempre pode substituir a palavra por outra. Fulano não arcou com as responsabilidades de seus atos? Pode chamá-lo de irresponsável, ao invés de imaturo. Soa mais verdadeiro.

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Sorry not sorry pelo meme defasado

Existe uma série de atitudes chatas – vitimismo, irresponsabilidade, etc – mas a gente tem que parar de torná-los sinônimo para a idade de alguém, da mesma forma que precisamos parar de menosprezar ‘coisas de criança’. Me pego rolando os olhos quando vejo alguém diminuindo um desenho, um livro de YA, um filme teen ou qualquer coisa que não seja compatível ao conceito de adultos.

Acho que chamar alguém (ou algo) de imaturo diz mais sobre a pessoa que falou do que sobre o assunto em questão.

Provavelmente estou soando super confusa e sem sentido, mas é algo que tá martelando na minha cabeça desde que a gente conversou e eu adoraria falar mais sobre o assunto porque ajuda a colocar minha cabeça no lugar. Se alguém tiver algo a dizer, já sabe né?  :07:

Ensimesmada

Às vezes me sinto meio Ed Kennedy

“Antes de começar a entrar em detalhes sobre mim, acho melhor ir contando alguns outros fatos:
1. Quando tinha 19 anos, Bob Dylan já era veterano da noite do Greenwich Village, em Nova York;
2. Salvador Dalí já tinha pintado uma porrada de quadros sensacionais e se rebelado quando fez 19 anos;
3. Joana D’Arc era a mulher mais procurada e caçada no mundo quando tinha 19 anos, tendo criado uma revolução;

Daí vem Ed Kennedy, também com 19 anos de idade… Um pouco antes do assalto lá no banco, eu já estava fazendo um balanço geral da minha vida.
Taxista – pra conseguir este emprego, tive que mentir na idade. (É preciso ter no mínimo 20 anos.)
Não segue carreira nenhuma.
Não tem o menor respeito na comunidade.
Porra nenhuma.” – Eu sou o mensageiro, Markus Zusak

Eu tenho 21 anos. Vocês podem dizer que ainda tenho a vida inteira pela frente, mas ó, tem dias que me sinto exatamente assim. Quando tinha cerca de 20 anos (não lembro agora se ele tinha 20, 21 ou qualquer coisa do tipo), Leonardo Sakamoto estava no Timor Leste, cobrindo o conflito armado contra a invasão indonésia. Virou seu trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. Com 20 anos, Gabriela já tinha saído da casa dos pais e morava sozinha. Ela já era a minha mãe, estava terminando a faculdade e trabalhava desde os 14 anos. E esses são apenas dois exemplos, que de certa forma fazem parte da minha realidade. Se fosse para citar gente famosa, ficaria nisso para sempre.

Às vezes me sinto realmente deprimida com a minha vida. Como se tudo isso fosse sem propósito, como se não fizesse diferença nenhuma. E aí fico pensando em como o Ed mudou a vida de tanta gente (nem que fosse algo momentâneo). Tá bom que é uma obra de ficção e ninguém recebe cartas de baralho pelo correio, ainda mais para jantar com velhinhas simpáticas, levar surra de irmãos, tomar sorvete com uma jovem mãe ou colocar luzinhas de Natal na casa dos outros.

Na vida real, não tem essa de chamado da aventura, não tem jornada do herói. Tem o cotidiano. Pode até ser pontuado por acontecimentos incríveis, significativos ou simplesmente legais, mas ainda é o nosso feijão com arroz de todo dia. Como fazer com que isso tudo valha a pena?  Fico sempre com aquela sensação incômoda de que a gente tem que ir atrás, porque a vida é agora. Porque a vida está passando.

No livro, o Ed percebe que ele era a maior mensagem de todas e que se tornou uma pessoa melhor (desculpa se soou como spoiler, mas o título do livro já diz isso. Minha consciência não pesa). Mas e do lado de cá? Como saber se estamos fazendo a coisa certa ou não? Eu não sei. Você não sabe. Sinceramente, ninguém nunca vai responder essa pergunta. A única coisa que sei é para começar, tenho que parar de abraçar sentimentos ruins e de remoer tudo aqui dentro. As coisas podem mudar quando eu sair da inércia. Mas vou parar minhas divagações por aqui, antes que isso se pareça (ainda mais) com um texto de autoajuda.

PS. Este post originalmente era sobre a aula magna que o Sakamoto fez na minha faculdade há mais de um mês, mas bem, deixa pra lá.