Mañana já é hoje

Em 18.03.2014   Arquivado em Ensimesmada
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Arte por maechevrette

Muitos anos depois, enquanto olhava a prateleira de livros e deixava as palavras do pai entrarem pelos ouvidos, Yasmin haveria de se recordar da adolescência. Dos moletons surrados, cadernos com exercícios de matemática e aquele livro de bolso com capa amarela que ela levava como um amuleto para todo canto. Era uma edição de “On the road” comprada no sebo por R$20,00 – o preço ainda hoje escrito a lápis na primeira página. Como se o simples fato de carregá-lo na mochila fosse lhe conferir um passaporte para viver experiências semelhantes às de Sal Paradise e sua trupe. A adolescência é mesmo um mundo estranho.

Na época, sua fascinação ia além da prosa espontânea, envolvente e vertiginosa. Se estendia aos mitos que cercavam a obra, como a lenda de que Kerouac teria escrito “sete anos na estrada” em “três semanas”. Queria um pedacinho daquilo tudo em sua própria rotina. O desejo de fazer algo louco, como fugir de casa inspirada pelo livro – da mesma forma que Bob Dylan havia feito – falava alto. Se deixar levar pelas ruas e estranhas, conhecendo toda sorte de pessoas e vivendo as mais loucas aventuras. Deitava de barriga para cima, com o livro esparramado na frente do rosto. Suspirando. Se sentia pouco, queria ser muito.

Anos depois, naquela mesma cama (com a única diferença desta estar encostada em outra parede do mesmo quarto), que Yasmin percebeu o quanto aquele livro tão incrível tinha frustrado sua adolescência. Já não mais deitava de barriga para cima e criava cenas mentais de suas aventuras. Sentada ereta, costas na parede, ela examinava os livros na prateleira. Encarava “On the road” e se confrontava com tudo aquilo que um dia desejara ser.

Havia decorado trechos que, no fundo, só faziam com que sua rotina fosse miserável. A vida real é uma antítese de tudo que buscara na ‘bíblia da geração beat’. Kerouac falava de mañana e de como ela nunca chegava. De como tudo podia ficar para o dia seguinte. Maior enganação, concluiu. Ela não podia deixar os estudos para o vestibular para mañana. Ela não podia se dar ao luxo de dormir nas revisões do cursinho, porque afinal, mañana já era Fuvest. Mañana estava mais próxima do que nunca.

Não podia jogar tudo para o alto e ir explorar a BR 101, com uma nota de dez reais amassada no bolso. Não porque a rodovia federal não oferece o mesmo encanto que a Rota 66. Mas porque a cada dia que passava, ela se dava conta que a vida adulta já batia à porta, exigindo responsabilidades. Yasmin imaginava que também poderia romantizar caronas e o barulho da estrada. Nunca chegou a pegar uma carona. As noitadas de festas e conversas os amigos se tornariam textos inovadores, marcas concretas de experiências intensas. Hoje não tem mais a ilusão de viver algo do tipo. “Viva, viaje, aventure-se, abençoe e não se arrependa”. Aquilo era realmente viver? As pessoas conseguem não se arrepender? Quanto tempo ela demorara a perceber que, na verdade, Kerouac fugira. E se antes ela queria se perder, agora sabia que era muito mais desafiador se encontrar. Se perder era fácil, chegava a ser  calculado em muitos casos. Se achar necessitava coragem.

Pelo menos não havia sido a única. O pai um dia também quisera esse tipo de vida para si – e, como ela, a falta de coragem o frustrara aos 15 anos. O próprio Kerouac tinha sido refém de suas experiências. O protagonista se arrastava atrás de Dean Moriarty e do espírito de deliquente juvenil que ele carregava, sem nunca conseguir ser dessa forma. Sal Paradise era Jack Kerouac, mas era também eu. Era também meu pai. E todos aqueles que vivem em busca de algo acima de nossas vidas pacatas e de responsabilidades rotineiras.

Mas, acima de tudo, Kerouac a enganou sobre o ato de escrever. Somente anos depois ela percebeu que não existe isso de redigir de forma ininterrupta, sem a preocupação com a cadência de ideias. Textos, livros, desenhos ou qualquer outra manifestação artística não saem de uma só vez, em um rolo de telex. Três semanas e 32 metros, uma tacada só. Justamente por falarem sobre algo íntimo e intenso, eles são mastigados e digeridos. São suados e, muitas vezes, sofridos – como este em questão. E não há como deixar para mañana. Mañana já é hoje.

  • Marina

    Em 18.03.2014

    Texto incrível. O quanto que vivi frustrada com minha vida desejando ser Sal Paradise. Quantas frases de On The Road eu não escrevi na capa dos cadernos, no livro de matemática, no pulso, nas paredes. Como é difícil ouvir a vida adulta batendo na porta sem poder escapar pela janela e pegar uma carona até o México. Adorei o texto, parabéns.

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  • gabi

    Em 18.03.2014

    Mas isso de colocar um ideal grandão pra ser minha máscara é comum quando a gente tá frágil demais. Isso é quase um ritual na adolescência. Quem nunca teve alguém em quem se sustentar e que aquele alguém era inspiração? E acho também que querer viver perigosamente ou aventuras incríveis de mais é na verdade mais simbólico do que ato mesmo. Na verdade quando a gente toma uma história que não é nossa pra fazer de conta que pode ser, estamos arranjando é um jeitinho de elaborar com aquilo o que o personagem dá conta e que a gente não dá. Não só aventuras reais, mas medos e superações que precisamos viver e que ficam bem escondidinhos ou nos angustiam demais pra que a gente se atente pra existência deles…
    No final não é tão ruim assim… Mañana passou como uma metáfora pra o que andava aos gritos dentro de você e que precisava de alguma forma, ser compreendido por alguém, ainda que fosse por ideais malucos de um personagem literário…
    Muita psicologia num comentário só! Parei! :14:

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  • Sandra

    Em 18.03.2014

    Texto lindo e interessante, como tudo o que vc escreve. Conheço bem esta sensação que vc descreve e confesso que até hoje, aos 30 anos, ainda não me livrei totalmente deste sentimento de achar que a felicidade está lá fora, me esperando em alguma estrada por aí. Mas pelo menos hoje eu entendo isso como uma fantasia gostosa que esteve comigo desde sempre, mas que não será mais que isso.
    Ah, e escreva mais, Yasmin! :13:

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  • ananda

    Em 18.03.2014

    Que coisa mais linda aqui e o texto!
    Quanta identificação!

    Para não, menina, gostei muito :)

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  • Lary Zorzenone

    Em 18.03.2014

    Você escreve muito bem, meus parabéns. Fiquei super intrigada agora para ler esse livro. Ele é real?
    Beijos

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  • Yasmin

    fevereiro 16th, 2016

    Nossa, obrigada :) Sim,esse livro é real! Se chama “On The Road”, do Jack Kerouac e é, como disse no texto, um dos meus livros favoritos do mundo inteiro.

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