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Ensimesmada

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A gripe e o suco de caju

Não sei bem por quê, mas sempre que fico gripada sinto uma sede incessante. Não bastam as dores no corpo, nariz inchado e vermelho de rena do Natal, sensação de tontura, entre outros sintomas de praxe. Também fico sem fome e não sinto o gosto de quase nada. Hoje comi um pacote daqueles palitinhos sem gosto coberto de cristais de sal – fui olhar no pacote e descobri o nome desse negócio: Stiksy. Aposto que todo mundo chama só de palitinho salgado, igual eu –, só porque consigo sentir um leve resquício de sabor “sal”. É bem frustrante.

A combinação desses dois fatores (sede incontrolável e alimentos sem gosto) causou um diálogo curioso. Minha mãe veio ao quarto me perguntar se eu queria alguma coisa do supermercado e, prontamente, disse:

– Suco. Ou chá gelado. Essa gripe me deixa com sede e só tem suco de caju aqui em casa.
–  E para comer?
– Nada, não sinto o gosto de nada.
– Então, por que não pode beber o suco de caju?
– Eu odeio suco de caju. Embora não sinta o gosto, sei que é de caju e isso vai contra os meus princípios.

Suco de caju é terrível. É meio consistente, você sente uns fiapos e tem aquele gosto que ou é meio amargo e fica na boca depois do gole, ou é tão entupido de açúcar que você não consegue distinguir outro sabor além daquele doce-melado-enjoativo. Em algum momento da minha infância, suco de caju não representava perigo algum. Mas aí a Nil – era a babá que cuidava da gente e fazia vezes de mãe, já que a minha sempre foi workaholic – decidiu que suco de caju era algo divino e merecia ser a bebida de quase todos os almoços.

Ela era bem metódica, essa Nil. Macarrão era o prato nas quintas-feiras, terça era dia de lavar as janelas de casa (mesmo naqueles dias nublados em que você sabia que não adiantava de nada limpar os vidros, já que ia chover logo em seguida).

Apesar disso, eu não odiava o suco de caju da Nil. Ele era, na verdade, bem gostoso. Igual a gelatina e o bolo formigueiro que ela intercalava de sobremesa nas sextas. Acontece que nunca mais tomei um suco gostoso daqueles, todos os seguintes foram uma grande decepção. Talvez ele nunca tenha sido tão bom assim, minha memória só moldou dessa forma. Talvez eu só gostasse do suco porque gostava da Nil. Vai saber. A questão é que depois de um tempo, desisti de experimentar sucos de caju pelo mundo a fora e só abracei a ideia de odiar categoricamente a bebida.

Minha mãe voltou do supermercado sem meu suco. Ou chá gelado. Ela nunca sai para o mercado com listas, então invariavelmente esquece algumas coisas. (A Nil fazia listas e deixava na porta da geladeira) Mas tudo bem, porque ela trouxe sorvete e lima da pérsia. No fim das contas, em uma atitude que diz muito sobre como sou fiel aos meus princípios, bebi o suco de caju. Não sem fazer careta.

Não sem reclamar (muito embora eu não sentisse gosto algum) que aquele não era como o da Nil. Alguns princípios são mais fortes que outros. Engoli o comprido de paracetamol com o suco e torci para fazer algum efeito.

Não aguento mais espirrar.