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Ensimesmada

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Mañana já é hoje

Muitos anos depois, enquanto olhava a prateleira de livros e deixava as palavras do pai entrarem pelos ouvidos, Yasmin haveria de se recordar da adolescência. Dos moletons surrados, cadernos com exercícios de matemática e aquele livro de bolso com capa amarela que ela levava como um amuleto para todo canto. Era uma edição de “On the road” comprada no sebo por R$20,00 – o preço ainda hoje escrito a lápis na primeira página. Como se o simples fato de carregá-lo na mochila fosse lhe conferir um passaporte para viver experiências semelhantes às de Sal Paradise e sua trupe. A adolescência é mesmo um mundo estranho.

Na época, sua fascinação ia além da prosa espontânea, envolvente e vertiginosa. Se estendia aos mitos que cercavam a obra, como a lenda de que Kerouac teria escrito “sete anos na estrada” em “três semanas”. Queria um pedacinho daquilo tudo em sua própria rotina. O desejo de fazer algo louco, como fugir de casa inspirada pelo livro – da mesma forma que Bob Dylan havia feito – falava alto. Se deixar levar pelas ruas e estranhas, conhecendo toda sorte de pessoas e vivendo as mais loucas aventuras. Deitava de barriga para cima, com o livro esparramado na frente do rosto. Suspirando. Se sentia pouco, queria ser muito.

Anos depois, naquela mesma cama (com a única diferença desta estar encostada em outra parede do mesmo quarto), que Yasmin percebeu o quanto aquele livro tão incrível tinha frustrado sua adolescência. Já não mais deitava de barriga para cima e criava cenas mentais de suas aventuras. Sentada ereta, costas na parede, ela examinava os livros na prateleira. Encarava “On the road” e se confrontava com tudo aquilo que um dia desejara ser.

Havia decorado trechos que, no fundo, só faziam com que sua rotina fosse miserável. A vida real é uma antítese de tudo que buscara na ‘bíblia da geração beat’. Kerouac falava de mañana e de como ela nunca chegava. De como tudo podia ficar para o dia seguinte. Maior enganação, concluiu. Ela não podia deixar os estudos para o vestibular para mañana. Ela não podia se dar ao luxo de dormir nas revisões do cursinho, porque afinal, mañana já era Fuvest. Mañana estava mais próxima do que nunca.

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Não podia jogar tudo para o alto e ir explorar a BR 101, com uma nota de dez reais amassada no bolso. Não porque a rodovia federal não oferece o mesmo encanto que a Rota 66. Mas porque a cada dia que passava, ela se dava conta que a vida adulta já batia à porta, exigindo responsabilidades. Yasmin imaginava que também poderia romantizar caronas e o barulho da estrada. Nunca chegou a pegar uma carona. As noitadas de festas e conversas os amigos se tornariam textos inovadores, marcas concretas de experiências intensas. Hoje não tem mais a ilusão de viver algo do tipo. “Viva, viaje, aventure-se, abençoe e não se arrependa”. Aquilo era realmente viver? As pessoas conseguem não se arrepender? Quanto tempo ela demorara a perceber que, na verdade, Kerouac fugira. E se antes ela queria se perder, agora sabia que era muito mais desafiador se encontrar. Se perder era fácil, chegava a ser  calculado em muitos casos. Se achar necessitava coragem.

Pelo menos não havia sido a única. O pai um dia também quisera esse tipo de vida para si – e, como ela, a falta de coragem o frustrara aos 15 anos. O próprio Kerouac tinha sido refém de suas experiências. O protagonista se arrastava atrás de Dean Moriarty e do espírito de deliquente juvenil que ele carregava, sem nunca conseguir ser dessa forma. Sal Paradise era Jack Kerouac, mas era também eu. Era também meu pai. E todos aqueles que vivem em busca de algo acima de nossas vidas pacatas e de responsabilidades rotineiras.

Mas, acima de tudo, Kerouac a enganou sobre o ato de escrever. Somente anos depois ela percebeu que não existe isso de redigir de forma ininterrupta, sem a preocupação com a cadência de ideias. Textos, livros, desenhos ou qualquer outra manifestação artística não saem de uma só vez, em um rolo de telex. Três semanas e 32 metros, uma tacada só. Justamente por falarem sobre algo íntimo e intenso, eles são mastigados e digeridos. São suados e, muitas vezes, sofridos – como este em questão. E não há como deixar para mañana. Mañana já é hoje.

[Fotos: 1, 2]

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Troquei as amígdalas por férias

Quarta-feira passada fiz uma amigdalectomia (um nome muito mais legal do que a expressão “remoção de amígdalas”) e alguns outros procedimentos de nomes complicados e, por conta disso, fiquei uma semana de molho em casa.

Não que a cirurgia seja delicada ou necessite muitos cuidados, pelo contrário. Para falar a verdade, esse repouso de sete dias é muito mais para que não pegue uma gripe ou coisa do tipo com a garganta ainda não cicatrizada. Isso sim causaria estragos de verdade. Salvo alguns incômodos, não é nada muito pior do que qualquer outra amigdalite que já tive na vida. E deus, como eu já tive amigdalites nessa vida.

Só que essas mini-férias também não foram lá um mar de rosas. Todo mundo falou coisas como “ai que incrível você vai tomar sorvete por uma semana!!!”, mas estou aqui para quebrar suas ilusões: isso não é tão incrível. Não é nada incrível quando sorvete é a única coisa que você pode comer (além de coisas como gelatina, pudim e sopa. Sopa fria e sem sal). Chega uma hora que você sente falta de coisas salgadas e do tão banal ato de mastigar. No auge da minha abstinência, tentei colocar um pedaço de Doritos na boca (meu namorado, muito solidário, trouxe um pacote enorme para comer enquanto assistíamos filme). Ardeu que nem o fogo do mármore do inferno.

Depois, temos o ato de dormir, tão (ou mais) importante que mastigar. Outra ilusão. Pensei que ia dormir até tarde e aproveitar meus dias na cama sem fazer nada, sem me importar com faculdade e estágio. Mas a verdade é que dormir demais dá dor nas costas. E você acha que dá pra realmente dormir bem com curativos e tampões no nariz? Tem que respirar pela boca e isso, depois de algum tempo, se torna um tanto quando desagradável.

Ainda bem que a parte boa da cirurgia restaurou o equilíbrio da força. Durante esses dias, fui altamente mimada pelos meus pais, namorado e gatas – essas não saiam de perto de jeito algum e estavam sempre ali, ronronando e esquentando meu colo. Experimentei todos os sabores de gelatina, e fiquei emocionada quando consegui engolir o sorvete de Cookies sem sentir uma dor absurda por conta dos pedaços de biscoito. Eu adoro sorvete de Cookies.

Pude jogar Pokémon White 2 sem me importar com o resto das obrigações. Quando a internet colaborava (meu roteador resolveu tirar férias também), fiz compras imaginárias na Antix e na Farm. Nunca fui uma pessoa do calor, mas talvez esses dias trancada dentro de casa tenham me dado vontade de andar por aí de vestidinho e cabelo solto, debaixo do sol. Além de, vejam só!, atualizei o blog.

Claro, sair de casa faz falta, mas quem não gosta de passar os dias de pijama? Sem contar que, passada uma semana, hoje volto no médico para tirar esses tampões do nariz e tenho esperanças de, pela primeira vez na vida, respirar decentemente.

[a foto dessas belezinhas de sorvetes veio daqui]

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Às vezes me sinto meio Ed Kennedy

“Antes de começar a entrar em detalhes sobre mim, acho melhor ir contando alguns outros fatos:
1. Quando tinha 19 anos, Bob Dylan já era veterano da noite do Greenwich Village, em Nova York;
2. Salvador Dalí já tinha pintado uma porrada de quadros sensacionais e se rebelado quando fez 19 anos;
3. Joana D’Arc era a mulher mais procurada e caçada no mundo quando tinha 19 anos, tendo criado uma revolução;

Daí vem Ed Kennedy, também com 19 anos de idade… Um pouco antes do assalto lá no banco, eu já estava fazendo um balanço geral da minha vida.
Taxista – pra conseguir este emprego, tive que mentir na idade. (É preciso ter no mínimo 20 anos.)
Não segue carreira nenhuma.
Não tem o menor respeito na comunidade.
Porra nenhuma.” – Eu sou o mensageiro, Markus Zusak

Eu tenho 21 anos. Vocês podem dizer que ainda tenho a vida inteira pela frente, mas ó, tem dias que me sinto exatamente assim. Quando tinha cerca de 20 anos (não lembro agora se ele tinha 20, 21 ou qualquer coisa do tipo), Leonardo Sakamoto estava no Timor Leste, cobrindo o conflito armado contra a invasão indonésia. Virou seu trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. Com 20 anos, Gabriela já tinha saído da casa dos pais e morava sozinha. Ela já era a minha mãe, estava terminando a faculdade e trabalhava desde os 14 anos. E esses são apenas dois exemplos, que de certa forma fazem parte da minha realidade. Se fosse para citar gente famosa, ficaria nisso para sempre.

Às vezes me sinto realmente deprimida com a minha vida. Como se tudo isso fosse sem propósito, como se não fizesse diferença nenhuma. E aí fico pensando em como o Ed mudou a vida de tanta gente (nem que fosse algo momentâneo). Tá bom que é uma obra de ficção e ninguém recebe cartas de baralho pelo correio, ainda mais para jantar com velhinhas simpáticas, levar surra de irmãos, tomar sorvete com uma jovem mãe ou colocar luzinhas de Natal na casa dos outros.

Na vida real, não tem essa de chamado da aventura, não tem jornada do herói. Tem o cotidiano. Pode até ser pontuado por acontecimentos incríveis, significativos ou simplesmente legais, mas ainda é o nosso feijão com arroz de todo dia. Como fazer com que isso tudo valha a pena?  Fico sempre com aquela sensação incômoda de que a gente tem que ir atrás, porque a vida é agora. Porque a vida está passando.

No livro, o Ed percebe que ele era a maior mensagem de todas e que se tornou uma pessoa melhor (desculpa se soou como spoiler, mas o título do livro já diz isso. Minha consciência não pesa). Mas e do lado de cá? Como saber se estamos fazendo a coisa certa ou não? Eu não sei. Você não sabe. Sinceramente, ninguém nunca vai responder essa pergunta. A única coisa que sei é para começar, tenho que parar de abraçar sentimentos ruins e de remoer tudo aqui dentro. As coisas podem mudar quando eu sair da inércia. Mas vou parar minhas divagações por aqui, antes que isso se pareça (ainda mais) com um texto de autoajuda.

PS. Este post originalmente era sobre a aula magna que o Sakamoto fez na minha faculdade há mais de um mês, mas bem, deixa pra lá.