Pratododia

Adeus, Augusta 938.

Na segunda eu devolvi as chaves do apartamento para a Juliana. Ironicamente ou não, no dia 15 de fevereiro de 2015 estava terminando de fechar minhas caixas para ir de encontro a uma nova casa, e também a uma nova Yasmin. Hoje, exatamente um ano depois de pegar nas chaves pela primeira vez como moradora – e não apenas mais uma visita que dormia no apartamento pós-baladas –, elas voltaram para o escritório da imobiliária. A vida é mesmo cheia de coincidências doidas.

Home is a state of mind. ??

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Sinto que saí da sala do cinema da vida antes dos créditos aparecerem e as luzes se acenderem, pois foi tudo feito de forma esbaforida, no meio de uma tempestade (quem mora em São Paulo sabe o caos que a cidade se tornou), muitos outros compromissos e uma grande desventura no caminho de volta para a casa dos meus pais. Como em quase todos os pontos finais das diversas fases pelas quais já passei, eu estava tão entorpecida pelo cansaço que nem me dei conta de que aquele era, de fato, o fim.

Desde o momento em que decidimos desmanchar o apartamento, imaginei muitas vezes como seria essa última olhada na sala com a parede de tijolinhos vermelhos ou a sensação de pisar no corredor com piso quente (até hoje um dos maiores mistérios da minha vida). Ontem eu nem me emocionei, só conseguia pensar em colocar minha avó dentro do carro, ajeitar as coisas no porta-malas e ainda retirar as chaves do chaveiro. Foi tudo muito rápido.

Talvez tenha sido melhor assim. A bagunça de jornal forrando no chão para pintar o apartamento vazio e a sala entulhada com restos finais das coisas-que-ainda-precisavam-de-um-fim não tinham cara de casa. Casa era chegar em casa e ter a Aline sorrindo, me esperando para conversar. Era sentar no chão da varanda do meu quarto e alternar entre pensar na vida e ouvir as conversas dos bêbados do Bar do Pescador. Era lavar toda a louça do almoço de domingo que a Ju tinha feito, já que eu nunca soube cozinhar. Era receber os mais diversos amigos no sofá vermelho. Era cochilar de sexta-feira, esperando o Rodrigo sair do trabalho no restaurante e vir me ver. As festas em casa, que não tinham pudor algum com o volume do som – “Ninguém pode reclamar, a gente mora em cima do Pescador!”, argumentávamos com as visitas preocupadas –, o Pudim correndo pelo corredor na hora de dormir. Eram as faxinas que a gente sofria do início ao fim, mas comemorava a casa limpa e até evitava encostar para não desmanchar. Era chegar em meia hora do trabalho à cama. Era acordar no meio da noite com o barulho da R. Augusta, e torcer o nariz com o cheiro de podre da rua que invadia as tardes de domingo. Era descer as escadas e entrar no Z Carniceria para comer hambúrguer com shimeji e tomar suco de tomate com tabasco (sem esquecer da maravilhosa porção de coxinhas!)

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Sei que essas coisas todas tem prazo de validade, que deve ser respeitado assim como o iogurte da geladeira. Acontece que, às vezes, a gente esquece alguns alimentos lá dentro (faz parte dessa coisa de morar sozinha). Ainda bem que tem coisas que não estragam de jeito algum. Como a minha geleia de laranja, a proteína de soja da Line, o pesto da Ju ou a magia do número 938 da Augusta.

Tinha mesmo algo de mágico naquele lugar e, mesmo antes de me tornar uma moradora de lá, já coseguia sentir. Corria para lá quando precisava de colo e a vida pesava demais, não importava que isso me custasse uma viagem de uma hora e meia de ônibus. Sempre foi um refúgio, o local dos “os melhores rolês”, fossem eles uma noite assistindo filmes do Studio Ghibli debaixo das cobertas até cair no sono ou descer para encontrar uma balada legal. E isso não é só sobre mim: para ficar só em um exemplo, duas grandes amigas começaram a namorar ali. Sempre foi um lugar para amar e se sentir amado.

Tanto amei aquela casa que ela se tornou meu lar também. Ali eu consegui voar um pouquinho mais alto. Aprendi sobre mim mesma, sobre desentupir privadas, sobre descobrir família nas suas amigas, sobre pagar contas e assumir responsabilidades, sobre confiança e amor. Sobre coisas que eu nem saberia espremer dentro de um post de blog. O Ninho me acolheu e me ajudou a amadurecer.

Mais um degrau na vida adulta.

tchau, ninho. ?

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A saudade já aperta no peito, mas não quero que ela prevaleça. Carrego as memórias boas que o apartamento me proporcionou e a certeza de que me tornei uma pessoa melhor graças ao que vivi nesse ano.

Obrigada por ter me ensinado a voar, Ninho. <3

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1 Comment

  • Reply Del fevereiro 17, 2016 at 12:23

    Que sensação boa ler esse post, Mimis! É engraçado como dá pra sentir de cá o quão acolhedor foi esse cantinho e, bem, que você voe cada vez mais alto ?

    (Saudades daqui)

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