Posts de abril de 2013

Às vezes me sinto meio Ed Kennedy

Em 24.04.2013   Arquivado em Ensimesmada

“Antes de começar a entrar em detalhes sobre mim, acho melhor ir contando alguns outros fatos:
1. Quando tinha 19 anos, Bob Dylan já era veterano da noite do Greenwich Village, em Nova York;
2. Salvador Dalí já tinha pintado uma porrada de quadros sensacionais e se rebelado quando fez 19 anos;
3. Joana D’Arc era a mulher mais procurada e caçada no mundo quando tinha 19 anos, tendo criado uma revolução;

Daí vem Ed Kennedy, também com 19 anos de idade… Um pouco antes do assalto lá no banco, eu já estava fazendo um balanço geral da minha vida.
Taxista – pra conseguir este emprego, tive que mentir na idade. (É preciso ter no mínimo 20 anos.)
Não segue carreira nenhuma.
Não tem o menor respeito na comunidade.
Porra nenhuma.” – Eu sou o mensageiro, Markus Zusak

Eu tenho 21 anos. Vocês podem dizer que ainda tenho a vida inteira pela frente, mas ó, tem dias que me sinto exatamente assim. Quando tinha cerca de 20 anos (não lembro agora se ele tinha 20, 21 ou qualquer coisa do tipo), Leonardo Sakamoto estava no Timor Leste, cobrindo o conflito armado contra a invasão indonésia. Virou seu trabalho de conclusão de curso na faculdade de jornalismo. Com 20 anos, Gabriela já tinha saído da casa dos pais e morava sozinha. Ela já era a minha mãe, estava terminando a faculdade e trabalhava desde os 14 anos. E esses são apenas dois exemplos, que de certa forma fazem parte da minha realidade. Se fosse para citar gente famosa, ficaria nisso para sempre.

Às vezes me sinto realmente deprimida com a minha vida. Como se tudo isso fosse sem propósito, como se não fizesse diferença nenhuma. E aí fico pensando em como o Ed mudou a vida de tanta gente (nem que fosse algo momentâneo). Tá bom que é uma obra de ficção e ninguém recebe cartas de baralho pelo correio, ainda mais para jantar com velhinhas simpáticas, levar surra de irmãos, tomar sorvete com uma jovem mãe ou colocar luzinhas de Natal na casa dos outros.

Na vida real, não tem essa de chamado da aventura, não tem jornada do herói. Tem o cotidiano. Pode até ser pontuado por acontecimentos incríveis, significativos ou simplesmente legais, mas ainda é o nosso feijão com arroz de todo dia. Como fazer com que isso tudo valha a pena?  Fico sempre com aquela sensação incômoda de que a gente tem que ir atrás, porque a vida é agora. Porque a vida está passando.

No livro, o Ed percebe que ele era a maior mensagem de todas e que se tornou uma pessoa melhor (desculpa se soou como spoiler, mas o título do livro já diz isso. Minha consciência não pesa). Mas e do lado de cá? Como saber se estamos fazendo a coisa certa ou não? Eu não sei. Você não sabe. Sinceramente, ninguém nunca vai responder essa pergunta. A única coisa que sei é para começar, tenho que parar de abraçar sentimentos ruins e de remoer tudo aqui dentro. As coisas podem mudar quando eu sair da inércia. Mas vou parar minhas divagações por aqui, antes que isso se pareça (ainda mais) com um texto de autoajuda.

PS. Este post originalmente era sobre a aula magna que o Sakamoto fez na minha faculdade há mais de um mês, mas bem, deixa pra lá.

A gripe e o suco de caju

Em 04.04.2013   Arquivado em Ensimesmada

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Não sei bem por quê, mas sempre que fico gripada sinto uma sede incessante. Não bastam as dores no corpo, nariz inchado e vermelho de rena do Natal, sensação de tontura, entre outros sintomas de praxe. Também fico sem fome e não sinto o gosto de quase nada. Hoje comi um pacote daqueles palitinhos sem gosto coberto de cristais de sal – fui olhar no pacote e descobri o nome desse negócio: Stiksy. Aposto que todo mundo chama só de palitinho salgado, igual eu –, só porque consigo sentir um leve resquício de sabor “sal”. É bem frustrante.

A combinação desses dois fatores (sede incontrolável e alimentos sem gosto) causou um diálogo curioso. Minha mãe veio ao quarto me perguntar se eu queria alguma coisa do supermercado e, prontamente, disse:

– Suco. Ou chá gelado. Essa gripe me deixa com sede e só tem suco de caju aqui em casa.
–  E para comer?
– Nada, não sinto o gosto de nada.
– Então, por que não pode beber o suco de caju?
– Eu odeio suco de caju. Embora não sinta o gosto, sei que é de caju e isso vai contra os meus princípios.

Suco de caju é terrível. É meio consistente, você sente uns fiapos e tem aquele gosto que ou é meio amargo e fica na boca depois do gole, ou é tão entupido de açúcar que você não consegue distinguir outro sabor além daquele doce-melado-enjoativo. Em algum momento da minha infância, suco de caju não representava perigo algum. Mas aí a Nil – era a moça que cuidava da gente e fazia vezes de mãe, já que a minha sempre foi workaholic – decidiu que suco de caju era algo divino e merecia ser a bebida de quase todos os almoços.

Ela era bem metódica, essa Nil. Macarrão era o prato nas quintas-feiras, terça era dia de lavar as janelas de casa (mesmo naqueles dias nublados em que você sabia que não adiantava de nada limpar os vidros, já que ia chover logo em seguida). Por essas e outras também tenho um certo trauma de arroz de forno: típica comida que ela deixava pronta na sexta, para comermos no sábado enquanto minha mãe estava fora de casa.

Apesar disso, eu não odiava o suco de caju da Nil. Ele era, na verdade, bem gostoso. Igual a gelatina e o bolo formigueiro que ela intercalava de sobremesa nas sextas. Acontece que nunca mais tomei um suco gostoso daqueles, todos os seguintes foram uma grande decepção. Talvez ele nunca tenha sido tão bom assim, minha memória só moldou dessa forma. Vai saber. A questão é que depois de um tempo, desisti de experimentar sucos de caju pelo mundo a fora e só abracei a ideia de odiar categoricamente a bebida.

Minha mãe voltou do supermercado sem meu suco. Ou chá gelado. Ela nunca sai para o mercado com listas, então invariavelmente esquece algumas coisas. (A Nil fazia listas e deixava na porta da geladeira) Mas tudo bem, porque ela trouxe sorvete e lima da pérsia. No fim das contas, em uma atitude que diz muito sobre como sou fiel aos meus princípios, bebi o suco de caju. Não sem fazer careta.

Não sem reclamar (muito embora eu não sentisse gosto algum) que aquele não era como o da Nil. Alguns princípios são mais fortes que outros.